P. Sr. Arya, você poderia explicar um pouco mais sobre o kaihôgyô? Procurei pela internet e não achei quase nada além do seu blog.
Me surpreendi ao ler suas palavras de que o kaihôgyô que é praticado no Monte Hiei hoje não é o autêntico. Fui ao Japão uma vez e, na cidade de Kyoto, vi um dos praticantes do kaihôgyô sendo venerado pelas ruas. As pessoas se ajoelham nas calçadas para que ele encoste o seu terço budista nelas. Eles usam um chapéu que parece uma barca.
Minha sogra é japonesa e jura que os praticantes ficam nove dias sem beber água, sem comer e sem dormir. Falei isso ao meu irmão (que é médico e hoje trabalha em um hospital de Lisboa) e ele riu na minha cara. Pelo que você diz no blog você também acha que é enganação, não é?
Por favor fale mais sobre esse assunto !
R. Quase nada há em língua ocidental sobre essa prática da Tradição Tendai. O modo como atualmente se realiza o Kaihôgyô (回峰行)no Monte Hiei, é uma forma degenerada da prática autêntica. É apenas uma maneira de se impressionar aos fiéis para que eles venerem os titulados como “Dai Ajyari”(大阿闍梨).
Os Dai-Ajyari se tornam estrelas midiáticas, escrevem livros de auto-ajuda, alegam poderes sobrenaturais (como uma super-audição que permite com que ouçam as cinzas do incenso caindo no incensário) e cobram fortunas por suas palestras para grupos de empresários, para platéias seletas e para a mídia de forma geral.
O Kaihôgyô tradicional não é mais praticado na Escola Tendai japonesa.
Para entendermos esse processo de degeneração, é importante compreendermos a história original do Kaihôgyô.
O mestre que introduziu essa prática foi o monge Sô-ô (相応)nascido em 831 e falecido em 918 da Era Comum.
O Venerável Sô-ô foi um monge Tendai que passou muitos anos em práticas ascéticas no Monte Hiei e em outras montanhas próximas. No entanto, nenhuma das práticas do Venerável Sô-ô foi organizada como um método ou como um trajeto obrigatório de peregrinação. Sô-ô também nunca disse que ficou sem beber água ou dormir nove dias, nunca alegou poderes sobrenaturais, não andava todo de branco e não se tornou uma “estrela da mídia ” de seu tempo.
A biografia mais importante do Venerável Sô-ô chama-se “Tendai nanzan Mudô-ji konryu oshô den” (天台南山無動寺建立和尚伝), “Biografia do Venerável Sô-ô, fundador do TemploTendai Mudô da montanha do Sul”.
Sô-ô nasceu na família Ichii, que dizia ser descendente de uma linhagem imperial. Seu local de nascimento foi a localidade de Asai, localizada a nordeste do lago Biwa, na província de Ômi (hoje prefeitura de Shiga).
Quando Sô-ô tinha quinze anos, no ano 845, se juntou à nascente comunidade Tendai japonesa no Monte Hiei. O Grande Mestre Saichô tinha falecido apenas vinte anos antes.
Sô-ô foi recebido como discípulo pelo mestre Chinsô. Dois anos depois ele foi ordenado noviço. Nessa época, se sentiu fortemente inspirado a buscar pela Iluminação e, todos os dias, colhia flores selvagens nas árvores do Monte Hiei e as oferecia no altar do templo Enryakuji. Por essa época, Ennin (Jikaku-Daishi) estava residindo em um sub-templo próximo ao Enryakuji.
Precisamente no ano em que Ennin voltou de sua longa peregrinação à China (847), Sô-ô foi ordenado noviço.
Ennin observava bastante a Sô-ô e admirava a dedicação com que ele trazia flores todos os dias ao altar do Enryakuji, não falhando nenhum dia por mais de seis anos consecutivos.
No ano 854, ano em que Ennin foi apontado como prior geral (zasu) da Escola Tendai, ele propôs que o nome de Sô-ô constasse na proposta de ordinandos anuais (nenbundosha) para se tornar um monge Tendai plenamente ordenado.
Sô-ô, quando foi informado disso, chamou a atenção de Ennin para outro noviço, que tinha se prostrado em lágrimas no templo central pedindo pela ordenação. Sô-ô pediu que Ennin substituísse a indicação dele para aquele noviço. Ennin concordou e ficou profundamente admirado com o ato virtuoso e desprendido de Sô-ô.
Dois anos depois, no ano 856, quando contava 25 anos de vida, Sô-ô foi indicado novamente por Ennin e, dessa vez, foi ordenado recebendo o nome monástico de Sô-ô.
Sô-ô, já como monge plenamente ordenado, se tornou discípulo de Ennin e iniciou o período de doze anos de reclusão no Monte Hiei, prática recomendada pelo Mestre Saichô aos que se ordenavam.
De Ennin, Sô-ô recebeu a transmissão de numerosos ensinamentos esotéricos como o Fudô-Myôo-hô (ritual esotérico dedicado a Fudô-Myôo e o Besson giki goma hô ( rituais de homá, dedicados a deidades específicas).
Depois de seu período de treinamento, Sô-ô se retirou a um local longe da área central do Monte Hiei e construiu um pequeno eremitério na parte sul da montanha. Esse foi o humilde início do “Mudôji”. Sô-ô permaneceu nesse local por três anos, engajando-se em práticas ascéticas, meditações e rituais esotéricos.
Em 858, Sô-ô foi chamado para curar uma dama da nobreza. A lenda conta que ele teria realizado um tipo de ritual esotérico para afastar um fantasma que estaria adoentando a moça. Depois disso, a moça se recuperou.
Em 859, Sô-ô iniciou um novo período de intensas práticas ascéticas. Ele se dirigia a locais inóspitos como a Montanha Hira, famosa por ser um local de prática de muitos ascetas anteriores a Sô-ô.
Sô-ô fez o voto de permanecer ali por três anos sem consumir sequer cereais. Comia apenas plantas selvagens que encontrava na montanha.
Sô-ô meditava intensamente sob as cachoeiras, nas grutas e nos locais mais escarpados da montanha. Um dia teve uma visão de Fudô-Myôo e, quando tentou agarrá-lo, ele tinha se transformado em um pedaço de árvore katsura. Sô-ô fez um oratório para esse pedaço de árvore e continuou suas práticas.
Sô-ô conhecia uma série de técnicas medicinais chinesas e, por isso, era sempre chamado para curar pessoas enfermas. Ao longo dos anos as pessoas começaram a mistificar essas técnicas e viam Sô-ô como um tipo de curandeiro. Até o imperador Seiwa, que julgava que uma das damas de companhia de sua corte estava possuída por uma raposa, chamou Sô-ô para curá-la. Ele também curou a imperatriz do Imperador Kôkô de uma séria doença.
Em 863 Sô-ô voltou para seu amado eremitério no Monte Hiei e lá começou a trabalhar para que o local se tornasse um centro de práticas espirituais. Mandou esculpir uma estátua de Fudô-Myôo em tamanho natural e, no ano 865, construiu uma sala para entronizar essa imagem. Foi nessa ocasião que deu ao templo o nome de “Mudôji”.
Em 881 o Imperador Yozei presenteou o Mudôji com estátuas de bronze de Dainichi-Nyorai e Fudô-Myôo, além de um sino de bronze forjado especialmente para o local.
Sô-ô também conseguiu que a corte concedesse a Saichô o título póstumo de “Dengyô Daishi” e a Ennin o título póstumo de “Jikaku Daishi”. Foi a primeira vez na história que tais títulos foram concedidos postumamente a budistas ilustres.
Sô-ô também era um fervoroso devoto do Buda Amitabha e, na noite de 3 de novembro de 918, morreu olhando para o oeste, recitando suavemente o nenbutsu.
Sô-ô viveu uma vida simples e devotada ao ascetismo. Nos primeiros anos após sua morte, quem queria praticar como ele se dirigia às proximidades do Mudôji ou à montanha Hira e vivia de forma igualmente simples, devotando-se ao estudo do Dharma, às meditações esotéricas , ao ascetismo alimentar (comendo frutas selvagens, folhas etc) e recitando o Nenbutsu. Ninguém esperava receber nenhum título com isso, ninguém se tornava “especial” e nem esperava ser uma “celebridade” da sociedade profana.
Não havia nenhuma “rota obrigatória” de peregrinação, nenhuma veste especial, não havia manuais secretos , não havia repórteres para filmar os “grandes heróis” e, aqueles ascetas, não alegavam poderes mágicos, apesar da devoção popular, às vezes, lhes atribuir algo do tipo.
Centenas deles viveram e morreram incógnitos.
Aliás, no período Heian, alguns leigos também se dedicavam a esse tipo de prática em busca da Iluminação.
A prática atual do Kaihôgyô não tem nada a ver com a simplicidade original. É uma montanha de apego a regras e rituais, um exibicionismo para a elevação do ego e uma mentirada com a história dos nove dias do doiri ( de sede e ausência de sono - algo medicamente impossível), que garantem aos praticantes o tão cobiçado título de Dai-Ajyari e permite com que eles entrem no palácio imperial com as sandálias comuns (o que nenhum outro mortal pode fazer).
Essas práticas atuais foram inventadas depois de 1571 da Era Comum. Em 1571, Oda Nobunaga devastou o Monte Hiei e os documentos originais sobre a prática do Kaihôgyô foram perdidos. Aí, quem podia inventar, inventava à vontade...
A corrupção no Monte Hiei desse período era notória e escandalosa. Não foi à toa que no período Kamakura surgiram tantas ordens budistas diferentes fundadas por egressos do Monte Hiei, cansados da corrupção e da degeneração total do clero Tendai da época. Também não foi por mera “antipatia” que Nobunaga invadiu o complexo monástico e produziu um verdadeiro massacre.
Enquanto Sô-ô não comia nem cereais (por conta de seu ascetismo), os “grandes mestres” do Monte Hiei comem carne e bebem álcool...Igualzinho né?
O Venerável Sô-ô (建立大師 - Kônryu-Daishi)